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sábado, 29 de junho de 2013

BH AMANHECE

Olá!

No meio deste emaranhado de prédios, ruas, buracos, manifestações, alguém descobre como é o despertar de BH, da nossa Belô.
Faz com tanta clareza que chego a sentir e ouvir os sons das manhã.
Qualquer dia destes deixo o carro na garagem e vou a pé até o meu destino, percebendo estes sons.





Transcrevo aqui a crônica de Luís Giffoni:

"BH amanhece"

"São 6 da manhã. Preciso estar no laboratório para um exame de sangue de rotina daqui a meia hora. Olho para o carro, olho para a rua. O céu, polido como se fosse novo, embrulhado num friozinho que refresca os pulmões, me faz decidir: vou a pé. Há muito não vejo Belo Horizonte acordar. Hoje será o dia. Caminhando entre a Serra e o Funcionários, acompanho a cidade. Ela sai da cama sem pressa, coça os olhos, boceja, para no bar da esquina, toma uma média de café com leite, espera o ônibus. A incongruência: BH arranca devagar, mas se levanta já de olho no relógio.

Surpreendem-me perfumes que julgava extintos: o do jasmim, seu restinho de fragrância noturna misturado à umidade do orvalho, é um requinte para o olfato; o aroma de pão francês saindo do forno me alcança na Rua do Ouro, um must em todas as mesas décadas atrás, quando a manteiga ainda não entupia as artérias; também percebo um raro odor de bolacha, semelhante ao que havia na Cidade Industrial nos anos 80, caso o vento não trouxesse o ovo podre de outras fábricas. Mais abaixo, paira o frescor de manhã limpa, um cheiro sem cheiro que me alenta. Um estudante passa por mim, afobado, contando moedas. Aposto que nada sente. O contato frequente também obstrui os sentidos.

Numa esquina, bandos de rolinhas e pombos lutam pelos grãos que lhes lança um homem com roupão vermelho. Famintas, as aves tornam-se desatentas. Em meu tempo de menino, talvez eu tentasse capturar alguma. Hoje, curto sua liberdade, pois sei como a minha é boa. Maritacas atacam as sementes das espatódeas. Bem-te-vis desconfiados cantam de longe. Alguém deve cloná-los. São iguaizinhos.

Na saída da farmácia, um pai corre rumo ao carro com remédios na mão e o semblante aflito. Minha imaginação tenta adivinhar o que não vai bem, contenho-me: seria ele realmente um pai? Por que não um filho?

O chaveiro sobe, de uma vezada, a porta de enrolar da loja. Na casa ao lado, acabaram de coar café e assar pão de queijo. Atração fatal no ar. Quase toco a campainha e imploro uma xícara da bebida e uma quitanda, perdendo o jejum de dez horas exigido para o exame.

Chego à Getúlio Vargas. Poucos carros. Ciclistas circulam, tranquilos, sem olhar para os lados. Os madrugadores estão no paraíso. Eu caio do céu: tropeço num buraco da calçada. A falta de poder público no passeio quase me obriga a usar o poder público no pronto-socorro do João XXIII. Dor evitável.

Sob uma marquise, um mendigo magérrimo dorme. Não se importa com a manhã: quem nota a manhã quando não tem amanhã? Rumo a uma academia, os malhadores passam pelo dorminhoco, sem notá-lo. Contraste social: lutam contra o excesso de peso. Ouço o tum-tum-tum dos passos sobre as esteiras. Prefiro a rua. Acho monótono correr sem sair do lugar.

O feirante monta sua barraca de frutas e legumes. Feira de bairro me remete à tradição, à continuidade, à impressão de que, no fundo, o mundo não muda. Ano após ano, a mesma rotina. Também pudera. Ano após ano, todos carecemos de comida. Quase me rendo a um caqui madurinho. Afasto-me com um olhar comprido sobre a fruta.

Meu reencontro com a cidade tem sabor de novidade, apesar do jeitão antigo, velho conhecido. Encanto-me com o mesmo, com o ritmo que há muito não testemunho. Na verdade, eu mudei, sumi das manhãs. Enquanto BH acorda, eu também acordo. Pela segunda vez no dia. E redescubro a cidade que me acaricia com seu despertar. Ternura mútua".

Belo Horizonte é tudo de bom!




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